um pai
Hoje eu e meu pai somos muito distintos um do outro, mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que tudo o que eu queria era ser igual a ele. A aparência, o andar, o jeito de falar, a mesma profissão, o mesmo veículo, uma esposa tão boa como a minha mãe, a mesma quantidade de filhos, os mesmos passatempos, tudo.
Eu nasci e fui criado em um ambiente muito rígido, tendo a figura paterna como o meu maior alvo de admiração, e dedicando a ele o máximo de respeito. Respeito este que muitas vezes eu confundi e acreditei que fosse a mesma coisa que sentir medo.
À medida em que eu crescia, pude ver o afeto se esvaindo, e as responsabilidades e exigências se sobressaindo.
Durante quase toda minha adolescência, me esforcei pra ser exatamente o oposto de tudo o que meu pai era e representava. O que eu queria, era construir minha própria identidade, ter minha liberdade, e descobrir quem eu era. Não queria viver a vida de outra pessoa, me espelhando eternamente nela, tentando incessantemente agradá-la, dia após dia, para ao final de cada dia concluir que todo o meu esforço seria em vão, que tudo o que eu fazia nunca era o suficiente, que eu sempre deixava faltar alguma coisa, que eu poderia ter me saído melhor, e que tudo o que eu fazia de bom não era mais do que minha obrigação. Que eu fui um fraco por haver desistido de todas as coisas as quais desisti. Que eu estava desperdiçando oportunidades que ele jamais teve, e que outras pessoas seriam capazes de matar por elas. Que outras pessoas haviam se saído melhor do que eu, e essas mesmas pessoas recebiam palavras de elogios do meu pai que eu jamais havia recebido.
Foi então que eu percebi que, tudo o que eu queria era nunca tratar os meus filhos da mesma forma que o meu pai me tratou um dia, e dizer a eles as mesmas coisas que ele me dizia. Quando atingi a maioridade, comecei a desafiar o meu pai, e a redirecionar todo o meu esforço em ser igual a ele na infância e diferente dele na adolescência no intuito de obter o máximo de sucesso possível para assim mostrá-lo do que eu era capaz. Que ele pudesse chegar à conclusão de que não era eu um mau filho, e sim ele que não era um bom pai. Queria fazê-lo engolir todas as ofensas e palavras duras as quais um dia ele utilizou para me descrever, como também repreender das coisas ruins, das que ele não compreendia, ou apenas não concordava com que eu fazia. Queria que ele um dia chegasse a velhice e precisasse de mim, de pedir minha ajuda.
Em momentos de raiva, já menti para algumas pessoas dizendo, quando me perguntavam, que o meu pai já havia morrido. E pela forma com que eu agia, parecia que ele havia morrido mesmo. Já sumi por vários dias sem dar notícia alguma, somente para que pudesse sentir que ele se preocupava de alguma forma comigo. Já o acusei de várias coisas, de várias faltas e de vários erros para outras pessoas; E tudo isso para tentar desfazer a imagem que eu ainda tinha dele na infância, e me convencer definitivamente de que meu pai não era perfeito, por mais frustrante que isso possa ter sido. Cheguei ao ponto de dizer ao meu pai coisas muito mais difíceis de ouvir do que aquelas que ele havia dito pra mim, e depois disso nunca mais falar com ele. Passei um bom tempo sem dirigir uma palavra sequer ao meu pai, e ele da mesma forma, também sem falar comigo. Às vezes o olhava pela rua, ou na casa de familiares e amigos em comum, e fingia que não o conhecia. Era reconfortante saber e ver que ele estava bem, mais isso seria uma coisa que eu jamais admitiria, e suponho que ele também não.
Até hoje eu não sei exatamente o que o meu pai esperava de mim com relação ao meu futuro, e também não sei se eu não acabei mesmo sendo uma grande decepção tanto para aquilo o que ele esperava do futuro dele, quanto para o meu. O que sei é que, passei a maior parte da minha vida tentando ser diferente do meu pai, para reconhecer e admitir que hoje sou muito parecido com ele, mesmo sendo muito diferente. Com toda certeza o meu pai não foi por diversas vezes tudo aquilo que eu esperava, mas eu ainda pude ouvir da boca dele, a declaração de que, tudo o que ele queria, quando tinha a minha idade, era que os filhos dele pudessem ter tudo aquilo que ele um dia quis e não teve, e fossem melhores que ele.
A minha vida de maneira alguma foi fácil, mas a do meu pai foi muito mais difícil. O tratamento que ele recebia do pai juntamente com as coisas as quais ele teve de suportar, fizeram com que ele fosse o homem que é hoje. E provavelmente também fizeram com que eu me tornasse um homem, e essa é a beleza nisso tudo. Somos sobreviventes. Somos homens, e esperamos que os nossos filhos sejam melhores do que nós, a cada geração. Nós nunca seremos perfeitos, mas nunca deixaremos de aprender. Com os acertos, com os erros, com tudo o que nossos pais nos ensinaram para que pudéssemos ser quem somos hoje, e para que nossos filhos possam receber, valorizar, e repassar todo esse conhecimento inestimável aos seus filhos. Para que estejam preparados para viver num mundo cada vez mais difícil de viver, e correspondam às nossas expectativas, até mesmo aquelas que nunca foram ditas. De que são e serão capazes de tudo, em tudo o que fizerem.
Nenhum pai deseja o pior para os seus filhos, e se desejar, não merece ser chamado de pai. Um pai é capaz de se sacrificar sem relutar pelo bem-estar dos seus filhos. Um pai ensina que o medo é um adversário que vale a pena encarar.
É incontestável o amor das mães pelos filhos, porém, às vezes, o amor fala mais alto do que a necessidade de corrigir no intuito de consolidar um caráter, e formar pessoas de bem. Somente os pais são capazes de amar os filhos e repreendê-los simultaneamente de forma tão pronta, valorosa e eficaz.
Por isso a figura paterna é tão importante, pois ela opera como um legítimo farol, que irradia sua luz de palavras e exemplo para nos orientar, por toda a vida.
Um pai ensina a se portar como homem, a viver como um homem, e a morrer como um homem, sempre dignamente.
Há alguns dias atrás eu voltei a conversar com o meu pai. E pude ouvi-lo dizer que, se um pai exigir do seu filho mais do que de qualquer outra pessoa, é porque ele sabe que o filho será capaz de ser o melhor naquilo que ele fizer. Um pai de verdade, conhece o seu filho a tal ponto, que sabe precisamente o fardo exato que ele será capaz de suportar.
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