Os Catanesi costumam murmurar que Palermo é a cidade do Pecado, davvero, diferente do Vaticano, não existe puritanismo nas sarjetas palermitanas.
No coração das vielas, pelas verdadeiras artérias da cidade, onde a noite pulsa prostituição e crime, não existem guias turísticos, locais históricos, imponentes catedrais, não existe nada de belo para ser fotografado por visitantes ocidentais. O único flash é o piscar dos neons de boates e prostíbulos, isso na melhor das hipóteses, muitas vezes, a unica luz branca incidente sobre seus olhos pode vim acompanhada de um estardalhar ensurdecedor, aromatizado de pólvora.
Os estabelecimentos da meia-noite são ecléticos, atendem todos os públicos. Com poucos euros no bolso e uma insaciável vontade de entranhar nicotina, os pequenos mercados são as melhores opções. No balcão enferrujado, sobre as prateleiras, elásticos cirúrgicos e seringas envelopadas á vácuo fazem companhia aos cigarros contrabandeados. Tabaco é o veneno menos nocivo da noite palermitana. A oferta e a demanda revesam os trocados do pequeno comércio, o lucro é contabilizado assim que o valor do Pizzo a ser pago para a Organização é alcançado, dali em diante, o comerciante ganha a vida.
O frio e o silêncio noturno excitam uma aposta, talvez por acreditar que continuar caminhando por aquelas ruas de pedra polida e ainda estar com vida seja um sinal de sorte.
Algumas prostitutas podem lhe indicar uma jogatina, claro que informações assim, valem tanto quanto uma volta entre suas pernas. E voltas será algo que dará dezenas de vezes: ''Converse com alguém no final da rua'', outro no ''próximo quarteirão'', ''entre por aqui ou acolá'', indicações assim são o preludio da sua sorte.
Se não parar em um beco com um desconhecido enfiando um revólver em sua boca, de forma que poderá sentir o gélido do ferro em sua língua, terá certeza que simpatizaram com a sua cara e logo estará sentado em uma cadeira preta almofadada, apertando alguns botões e pedindo a Deus que suas notas se multipliquem, mas quem disse que Ele lhe ouvirá?
As jogatinas são sempre diversificadas, para que um importunar dos carabinieri não prejudique de forma relevante os negócios.
''Trevo de quatro folhas'' é como são chamados as casas de poker e roleta, feitas para os ''mais sortudos'', daqueles que colocam a mão no bolso, tiram um euro de caridade e soltam sobre os pés daquelas crianças de rua que vagueiam pelo centro, mas ironicamente, no final da noite, são os mesmos que queimam milhares com um blefe amador.
A fumaça do dinheiro empenhado na mesa vai direto para o exaustor da Casa; a banca nunca quebra, nunca dorme, nunca para. Assim é a vida! Não importa como será, perder ou ganhar, ela sempre continua e não te espera. As cartas das oportunidades são jogadas na sua frente, querendo ou não, você é o jogador nato!
É necessário aprender todas as suas regras para então, arriscar um Ás na manga.
Tudo isto ao seu redor, amico mio, é nada mais que um jogo sujo, onde existem somente dois tipos de jogadores honestos; os que não sabem trapacear e os que sabem, mas tem medo de serem pegos.
Mas no final, quando a vida lhe desafia, o resumo é: ''cobre a aposta ou passa...''

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