sábado, 7 de fevereiro de 2015 |

happy hour



É isso aí, tá decidido. Prometi que essa semana dispensaria toda happy hour que me aparecesse ao decorrer dela. Ultimamente não tenho tirado uma migalha de tempo sequer pra dormir aquelas oito horas que os médicos recomendam e que eu nunca conheci desde que comecei a trabalhar. Motorista. Salário mínimo. 8 horas por dia. Uma folga por semana. Era na segunda, o dia da ressaca. Bons] tempos] difíceis. Fora os malditos lapsos de insônia que insistem em aparecer sem serem convidados. Pois sim, cá estou, novamente quebrando promessas que fiz a mim mesmo, e acumulando cansaço por um bem maior: Um amigo, antigo, dos poucos que sobraram, dos muitos que casaram, brigou novamente com a esposa, e decidiu desabafar.
Presumo ainda me sentir na obrigação de ouvi-lo dizer as mesmas coisas que foram ditas na semana passada, no seu último desabafo, neste mesmo bar, nesta mesma mesa, com os mesmos motivos. Foi o que me restou de monotonia, a monogamia do meu amigo.
No decorrer da narrativa, penso em soluções simples que resolveriam todos os problemas logo de cara, mas ele insiste em dizer que não é bem assim, que é mais complicado do que parece. Na minha opinião, ele só entende mesmo do medo da perda, que obviamente, ela não possui e nem retribui. Ela tem o péssimo ato de retribuir o tudo com nada. Ele tem o péssimo ato de retribuir o nada com tudo. E tudo se resume a isso: Pagando comprometimento, e recebendo notas promissórias de compromisso, e sem juros. Isto, quando não recebe portas na cara, ou roupas jogadas pela janela.
Eu tenho que a agradecer a ele, sério mesmo. Por sempre me lembrar do porquê não me casar. Sem falar nas boas piadas que a sua desventura conjugal acaba rendendo. Suas reclamações de dores nas costas vem acompanhadas de minhas recomendações que incluem a compra de um sofá novo pra dormir. O medo dele resume-se mais ou menos ao fato de que, se ele tomar novamente uma decisão definitiva como a do casamento, acabe ficando sem nada; sem nada melhor do que ele julga obter, ou sem nada melhor que consiga fazê-lo esquecer. É, Triste. Decisões definitivas fazem isso com você.
Eu, desde já assumo minha parcela de culpa nisso. Digamos que eu seja tudo aquilo que ele poderia ter sido. Mas não foi. E ele sabe disso, até chega a se lamentar. Talvez eu seja um bom amigo, ou pelo menos tento ser. Tentando poupá-lo da dor, e desconversando ou mesmo não respondendo as suas constantes perguntas sórdidas quanto à minha vida, e atividade sexual. Normal.
Por fim, acredito que ele pense que, essa vida que eu levo definitivamente não sirva pra ele.
Não discordo, já conheci garotas que seriam a companhia perfeita para caras com o perfil dele, mas acabaram na cama de caras como eu.
Se eu me sinto culpado? Eu deveria? Não acredito em hipnose, não apontei armas durante esse último verão, e não me lembro de haver prometido nada, justamente para isentar-me de uma hipotética culpa que provavelmente eu nunca sentiria. A escolha foi, é e continuará a ser delas, eu só correspondi. É, eu já ouvi essa conversa de coração-de-pedra antes, mas a realidade nesses casos é a de que, não sou nem um pouco imune aos meus ímpetos instintivos quando o assunto a se tratar é exatamente o de mulheres me facilitando descaradamente.
A esposa do meu amigo em questão passou por isso, conforme ele mesmo me contou. Ainda bem que não foi comigo, não gostaria de pensar que ele assumisse o papel de reciclador, ainda por cima o meu.
Ele diz que eu não tenho escrúpulos por colecionar telefones, mas eu o corrijo prontamente alegando que os tenho, e muito. Prefiro mentir dizendo que vou ligar e não ligo, do que dizer que vou sair pra comprar cigarros e nunca mais voltar. Por essas e por outras que aquelas cerimônias nunca me encheram os olhos, apesar de já me terem feito de padrinho. Qualquer dia desses vou me esforçar pra pegar o buquê, só pra ter o prazer de atear fogo nele. E depois sair correndo, brincando de tocha olímpica. A mãe do noivo bem que avisou para não me porem de padrinho, não avisou? Pois é. Ainda quero que ele continue casado. Mesmo que não pareça. Por que, assim como eu sou o outro extremo do pólo pra ele, ele logicamente também é o outro extremo do pólo pra mim. Se eu realmente nascesse pra isso, e não considerasse uma puta mediocridade bem como um tremendo confinamento essa coisa chamada casamento, acho que seria como ele: Uma ótima pessoa, tranquila, fiel, apesar das circunstâncias, que sonha em ter filhos, levá-los no zoológico, engordar, fazer um churrasco e convidar os amigos no domingo.
Não, pensando melhor, não.
Preciso falar umas coisas para a mulher dele, sei lá, tentar pôr a cabeça dela no lugar. Mas essas coisas precisam sair da boca dele. Posso não ter experiência no quesito dois-sob-o-mesmo-teto, mas tenho um amplo know-how no quesito mulheres. Vai servir.
Espero que ele não perca de todo esse altruísmo, nem talvez esse costume de eternizar as coisas. Querendo eu ou não, são coisas que considero importantes, e fazem parte do caráter dele. Mas, depois dessa conversa, espero que ele realmente recicle a si próprio, e faça aquilo o que tem que fazer. Que ele possa mudar seus hábitos, e deixar de fazer as cobranças, mas sem perdoar as dívidas.
Torço para que tudo acabe bem, mas se não o fizer bem de forma alguma, torço para que acabe. Um problema a menos pra cuidar, um peso a mais pra jogar no ar. Saio do bar com a sensação de ter cumprido o meu dever, e com o telefone da garçonete no bolso. Lição de casa. O expediente dela acaba às nove. O telefone dela termina com nove. Tenho algum problema com telefones. Salário mínimo. 8 horas por dia. Uma folga por semana. Nesse ritmo, vou acabar virando psicólogo. É isso aí, tá decidido.
Não, pensando melhor, não.

0 comentários:

Postar um comentário