folha em branco
Sentei na cadeira e topei o desafio que a folha em branco estava me propondo. À princípio, fiquei listando os princípios que poderia mencionar em momentos estratégicos que jogaria no papel, como se fosse uma batalha naval, sendo travada ali mesmo, e nela eu estava perdendo. Afundei nos meus pensamentos, e busquei a superfície do meu copo. Engraçado, procurei o farol, mas não o encontrei.
Estava realmente perdido. Tudo o que via a minha volta era uma imensidão branca, com ondas gráficas que iam surgindo de forma agressiva e revoltosa. Então eu aceitei que elas me submergissem.
Lá no fundo eu pude encontrar aquilo que estava procurando, que no entanto nem sabia o que era. No meu oceano particular, havia tinta misturada com uísque 12 anos, repleto de sarcasmos e sacanagens. Preciso pensar em um anagrama com essas duas palavras para nomear o meu oceano, afinal ele merece.
O oxigênio não me fez falta, me adaptei ao ambiente. Quando dei por mim, já era um espécime endêmico dali. Desde então os sarcasmos e as sacanagens me circundam e acompanham, como fiéis escudeiros, me protegendo até mesmo dos perigos que posso encontrar dentro de mim mesmo. Não, eles estão longe de assumir o papel de anticorpos, até porque os meus próprios anticorpos também me envenenam. Eu os considero como um mal necessário, um mal com algo de bom. Alguém em algum momento me definiu assim. Achei graça. Devo ter algo de bom mesmo, mas não vou expor isso. É um flanco desprotegido na minha batalha naval. Mas também é outro mal necessário. Não que este dessa vez seja a mim nocivo ou tóxico; na verdade, ele deve até me fazer bem mesmo. O problema é que não aprecio muito a companhia que o bem faz em mim, mas ele é o único capaz de me levar de volta à superfície.
Estão se tornando cada vez mais raras as minha aparições por lá. Quando subo, me deparo com uma atmosfera cinzenta e nuvens de fumaça dum cigarro no cinzeiro, ali no canto da minha mesa. Quando finalmente me encontrei, o mundo a minha volta estava perdido. Optei por voltar ao meu oceano, pelo menos lá eu já conheço e sou muito bem recebido. A decoração é mágica: Paredes de melancolia com o assoalho revestido de princípios. Aí estão eles, a minha sustentação. Não pude encontrá-los porque em momento algum olhei pra baixo, por culpa da minha altivez. Mas eles estavam lá. E cá agora estou, me sinto mais confortável aqui, é mais aconchegante do que lá em cima. Gosto até do toque especial que as manchas engorduradas de benevolência na minha parede dão ao ambiente. Fico me perguntando se é possível poluir ainda mais o que já está poluído, ou se algo que até então não se pôde poluir ainda pode se manter intacto, em meio ao risco iminente de contaminação, por todos os lados.
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