atípico
Não esqueça que foi você quem perguntou. Mas vale a tentativa.
Eu sou tipicamente atípico. Uma mistura de rótulos ruins. Qualquer tentativa da minha parte de me descrever, é frustrada imediatamente pelo meu senso de auto-preservação, como também para conservar o efeito-surpresa e usá-lo contra quem tenha a pretensa ideia de me subestimar. Os meus problemas com relações a longo prazo eu passei a considerar como alergia, embora quem me conheça de longa data e com delongas chame isso de fobia. Essa coisa de 8 ou 80 impera no meu julgamento e meio social. Meus amigos cretinos são a maior prova disso. E apesar de adorarem me contestar, se eu precisar, eles estarão por lá. Esse ''lá'' provavelmente é uma taverna. Mas consigo localizar. Amizade de longa data, sem prazo e com delongas proporciona isso, gostos parecidos.
Não sou muito de perder tempo encontrando qualidades em mim, e tenho uma simpática aversão por quem as fica procurando e acaba identificando em alguma atitude minha. Odeio. Penso e repenso inúmeras vezes se qualquer intimidade vai me trazer alguma utilidade. Meu individualismo deve ser até altruísta, porque depois de todo esse tempo de convivência, eu já consigo me corresponder tão bem com ele, que até dispensamos a terapia. Fator este que me arma com um arsenal de certezas das quais nenhuma das pessoas com as quais me envolvi conseguiram. A guerra pode até ser sentimental, mas a munição continua sendo letal. Por esse motivo, e também por pirraça, sempre dispenso aproximações maiores de quem tenta se aproximar mais do que o necessário.
Eu estou poupando-as de choros intermináveis e xingamentos desnecessários, e nem precisam me agradecer por isso. Pois no fundo eu sei quem sou, e no final sempre acabo considerando cada xingamento como elogio.
Fica mais fácil se me odiar. É claro que não vou me importar, é o mínimo que posso fazer. Considere isso como um gesto de cavalheirismo. Não que realmente seja, tá mais pra gentileza. Mas elas não precisam saber disso.
Caso eu tente justificar algo, sairá tão ruim quanto as minhas tentativas de me descrever. E essa conformação comigo é até poética, para não dizer piegas, porque não consigo identificar pieguice alguma em mim. Vai ver a pieguice é alguma qualidade, só isso justifica. Uma qualidade muito escrota, diga-se de passagem.
Além disso, não sobra muito o que dizer. O que mais eu posso dizer? Que eu sempre fico me fazendo essa pergunta mentalmente nesses términos que nem começaram de alguma coisa que não consigo descrever o que é, com alguém que, independente do quanto foi bom ou o quanto durou não consigo descrever como é? Sobra pouco a dizer. Não tenho hábitos alimentares saudáveis, mas sou seletivo com mulheres e bebidas. Sobra pouco a dizer. Rock melancólico meio que combina com minha personalidade. Por que você acha que as melhores músicas tocam justamente na hora do rush? Sobra pouco a dizer. Eu sou um babaca. Pronto. Admiti. Uma bomba-relógio de decepção na vida de qualquer garota esperançosa. Sobra pouco a dizer. Talvez um ''eu te avisei.'' Meio cruel, quem sabe na próxima. Qualquer tentativa de aproximação será em vão. É, eu sei, devo mesmo ser meio morto por dentro. Sobra pouco a dizer. Só sei que nunca saio machucado nesses contos de fada dos quais eu fico com o papel de anti-herói. Heróis combatem o crime. Eu, no caso, sou o meu próprio crime. Sobra pouco a dizer. E olha que já me esforcei para sofrer algum remorso ou crise de consciência, logo depois de perder. Bom, o remorso não deu as caras e eu devo ter perdido a sensação em algum lugar do cérebro. Mumificada. Sobra pouco a dizer. Eu vou de ''A gente se vê'' ou ''Adeus'', e num reencontro, quem sabe, ''Estou bem, obrigado. E você?''
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