sentimentos
Realmente foi melhor ter deixado as especulações de lado, pois se em algum momento eu chegasse a uma conclusão definitiva, isso mudaria algo? De forma alguma. Talvez as especulações fossem feitas só para que eu não me sentisse incomodado por não saber, ou por acreditar que isso me tornaria mais parecido com tantas outras pessoas que são consideradas, você sabe, normais. Olhe para todas aquelas pessoas lá embaixo. Elas andam por aí, acompanhadas de suas fiéis expectativas, que nem de escudo servem. No final são apenas peso extra. Numa fuga, atrasam bastante.
Ela me disse que o maior erro de todos os outros era exatamente o de tentarem ser o mais diferente possível de mim.
Meu passatempo atual tem sido esse: Tentar descobrir a razão da minha ausência de emoção. Não que eu realmente queira sentir algo, apesar de não me imaginar sentindo mais nem uma fagulha de absolutamente nada. Pé no acelerador, fragmento de bala no músculo tibial posterior. Sangue quente, sem dor. Acordei aqui.
O que ainda me intriga é justamente esse meu tanto-faz das coisas, sem exceção. Até mesmo de coisas que escrevo aqui, e que você se identificará, ou jamais entenderá, tanto faz. Deixemos a prolixidade de lado, sobram poucos detalhes quando se contrata gratuitamente como analista o teto branco do quinto andar de um hospital particular. O divã também não é muito lá essas coisas, uma cama hospitalar. Pouco confortável, ferros por todos os lados e combinando com aquele cheiro característico do lugar espalhado pelo ar. Algemas. A enfermeira não é gostosa. Recebi flores. Dela. Mas por quê flores? Nem ao menos um grampo no cartão. O mais interessante é que, estou satisfeito. Com tudo. Agora só preciso sair daqui.
A verdade é que, o mais próximo que consegui chegar de uma conclusão plausível sobre esses momentos dos quais eu agora apelidei carinhosamente de ''guerras existenciais sentimentais'', foi o de que eu queria sentir ao menos culpa por não sentir porríssima nenhuma. Como se a própria culpa servisse para me redimir das coisas que não senti, dos sentimentos que não retribuí, não correspondi, e até dos que não descobri a tempo. Até agora, nem sinal dela por aqui, e duvido muito que ela apareça, sou capaz até de apostar. Mas caso ela resolva aparecer, farei questão de que ela divida uma garrafa comigo e me conte como ela sobreviveu ao genocídio de sentimentos que eu cometi dentro da cabeça, como ela encontrou o caminho de volta, e por que motivo ela decidiu voltar.
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