Martelo, pregos e descaso
Eu fui fundador do Contadino, o galpão de carpintaria mais funcional de Nápoles. Empreguei cerca de apenas vinte funcionários em uma longa existência de sessenta e sete anos, modificando poucas vezes a equipe. Entre todos, somente um homem trabalhou comigo desde a criação.
Encontrei Carmine na rua dormindo em meio aos cachorros. Quando ofereci o emprego, ele não hesitou. Cuidei da sua aparência, ofereci abrigo no estoque dos fundos e ensinei a ele tudo o que um carpinteiro precisava saber. O ex-morador de rua se tornou assíduo, cumpria as ordens, porém muitas vezes enrolava ou fazia de qualquer modo, para logo ir descansar. Herdou da rua a preguiça. E trouxe consigo também, o vicio em bebidas alcoólicas, razão pela qual nunca conseguiu fazer seu dinheiro fluir.
Depois de tanto tempo, o já velho Carmine, devastado pela idade, cansaço e toda bebedeira do decorrer da vida, veio até mim e pediu autorização para se aposentar. Não neguei seu pedido, mas disse que concederia a aposentadoria após a conclusão de um último trabalho. Dito que seria necessário construir uma casa sem ajuda de ninguém, inúmeras caretas de negação se formaram em seu rosto. Demorou, mas depois de tantas desculpas para não fazer, mudou de ideia. Na manhã seguinte entreguei o que seria necessário. Carmine saiu do galpão com a planta, e algumas ferramentas destino ao terreno. Chegando lá, encontrou uma porção de tábuas de qualidade inquestionável. O trabalho foi árduo, nunca vi ninguém terminar algo de tamanha proporção, tão velozmente. A vontade de se livrar do afazer era imensa.
Quando fui analisar o resultado junto a ele, encontrei o esperado. A casa não seguia o projeto da planta. O telhado estava torto, as portas desprendiam e as paredes, estavam bambas. Um empurrão e tudo iria para o chão. Mantendo a inviolável calma comecei dizer a verdade:
“Mine, meu caríssimo amigo, o que três carpinteiros demorariam dois meses para levantar você ergueu sem a ajuda de ninguém em só treze horas. Você sempre fez o que foi pedido, mas o resultado em vezes foi negativo. Entrego-lhe a liberdade para aposentar, e junto, dou a chave da sua casa que sem saber, você construiu com tanta pressa e má vontade. Carmine, se eu houvesse dito antes, o barraco que foi feito com desdém, seria agora um palácio. Você não teria escondido materiais para finalizar mais rápido, e haveria mais dedicação. De agora em diante, faça tudo como se fosse para você. Mesmo que não seja, será".
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